Ao estabelecer uma análise psicanalítica sobre a exaustão na sociedade do desempenho, identificamos que o cansaço, que define a experiência subjetiva no século XXI não é um mero subproduto da carga horária de trabalho ou do trânsito das metrópoles. Ele se apresenta como uma patologia estrutural, um ruído constante que atravessa as classes sociais e as faixas etárias, manifestando-se como uma exaustão que o sono não restaura e que o lazer, ironicamente, parece aprofundar. Se em 1930 Sigmund Freud diagnosticava o mal-estar na civilização como o resultado da renúncia pulsional, o preço pago em neurose para que o sujeito pudesse viver em sociedade, o cenário contemporâneo nos impõe uma inversão radical. O mal-estar atual não advém da proibição, mas de uma permissividade coercitiva; não da falta, mas do excesso.
Neste artigo, propomos uma interlocução profunda entre a obra do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, especialmente em seu ensaio Sociedade do Cansaço, e os fundamentos da psicanálise freudo-lacaniana. A tese central que sustentamos é que o cansaço onipresente não é acidental, mas a manifestação de uma nova economia psíquica. Enquanto Han nos oferece uma descrição fenomenológica e sociológica precisa desse fenômeno, a psicanálise nos permite descer às profundezas do aparelho psíquico para compreender como o imperativo de desempenho captura o desejo e o transforma em um gozo mortífero. O cansaço, portanto, deixa de ser apenas um sintoma físico para se tornar um sintoma analítico: um sinal de que o sujeito está em guerra consigo mesmo, sob o comando de um superego que não mais proíbe, mas ordena a produção e o gozo ilimitados.
O Cansaço como Sintoma Contemporâneo e o Sofrimento Psíquico
Byung-Chul Han estabelece uma distinção fundamental para compreendermos a transição do sofrimento psíquico: a passagem da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho. A sociedade disciplinar, descrita por Michel Foucault, era composta por instituições de confinamento, hospitais, quartéis, fábricas e escolas, e regida pela negatividade da proibição. O sujeito era um “sujeito da obediência”, confrontado com o “não-ter-o-direito”. Na psicanálise clássica, essa estrutura reflete a neurose de transferência, onde o conflito se dá entre o desejo e a lei, entre o Id e o Superego proibidor.
Contudo, o século XXI assiste à ascensão do “sujeito de desempenho”. Este não é mais um sujeito de obediência, mas um “empresário de si mesmo”. As academias de fitness, os escritórios de co-working e as notificações constantes de produtividade substituíram o hospital e o presídio. A negatividade do “não pode” deu lugar à positividade tóxica do “sim, nós podemos” (Yes, we can). Se a sociedade disciplinar produzia loucos e delinquentes, a sociedade do desempenho produz depressivos e fracassados. Do ponto de vista psicanalítico, essa mudança altera a natureza do conflito: o sujeito não sofre mais por não poder realizar seu desejo devido a uma barreira externa, mas sofre por não ser “capaz” de atingir um ideal de perfeição e produtividade que ele mesmo internalizou.
A autoexploração e o superego que ordena o gozo
A grande armadilha da sociedade contemporânea reside na ilusão de liberdade. Han argumenta que o sujeito de desempenho se acredita livre da instância externa de domínio, mas essa queda do dominador faz com que liberdade e coação coincidam. O indivíduo se entrega a uma autoexploração que é muito mais eficiente que a exploração alheia, pois vem acompanhada de um sentimento de autonomia. É o profissional que responde e-mails à meia-noite ou o profissional liberal que trabalha doze horas por dia sentindo-se “dono do seu tempo”.
Na teoria lacaniana, essa dinâmica pode ser lida através da mutação do Superego. Se para Freud o Superego era a voz da consciência moral que dizia “Não!”, para Lacan, no contexto do discurso do capitalista, o Superego assume uma face obscena e feroz que ordena: “Goza!”. Este imperativo de gozo não visa o prazer, mas uma satisfação pulsional que não conhece limites e que ignora a castração. O sujeito de desempenho é, na verdade, um escravo desse imperativo. A autoexploração é a manifestação clínica de Thanatos (pulsão de morte) desvinculada de Eros. Sem o limite do Outro, o sujeito se consome em uma autoflagelação produtiva, onde o sucesso e o esgotamento tornam-se indistinguíveis.
A violência neuronal e o real na clínica
Han utiliza o termo violência neuronal para descrever patologias como a depressão, o TDAH e o Burnout. Diferente da violência bacteriológica ou viral, que é excludente e imunológica (o Outro que ataca o Eu), a violência neuronal é saturante. Ela advém do excesso de positividade, da incapacidade de dizer “não” e da abolição da alteridade. Na clínica psicanalítica, observamos que o Burnout não é apenas um esgotamento físico, mas o que Han chama de “alma consumida” e o que Lacan descreveria como o colapso do sujeito diante do Real.
O Real é aquilo que resiste à simbolização, o que “não cessa de não se escrever”. Quando o sujeito é bombardeado por um excesso de estímulos e exigências de desempenho, o sistema simbólico (a linguagem, os sentidos) falha em processar essa carga. As doenças neuronais são irrupções desse Real no corpo. A depressão, nesse contexto, surge como o “cansaço de fazer e de poder”. Em uma cultura onde “nada é impossível”, o depressivo é aquele que se depara com a impossibilidade radical de sustentar a própria imagem. O Burnout é o nome contemporâneo para o esgotamento do sujeito que tentou eliminar o resto, o intervalo e a falta, tentando tornar-se uma máquina de gozo puro.
Tédio profundo, atenção e o tempo da escuta analítica
Um dos pontos mais sensíveis da análise de Han é a perda da capacidade contemplativa. A hiperatenção dispersa, característica do multitasking, é apresentada como um retrocesso evolutivo, aproximando o humano do estado selvagem, onde a atenção deve estar dividida para a sobrevivência. Em contrapartida, o tédio profundo é descrito como o “pássaro onírico que choca o ovo da experiência”. Sem o tédio, sem a pausa, não há cultura, não há pensamento e, fundamentalmente, não há escuta.
A psicanálise oferece uma resistência ética a essa fragmentação da atenção. A técnica da atenção uniformemente suspensa (freischwebende Aufmerksamkeit), proposta por Freud, é precisamente o oposto da hiperatenção digital. O analista não busca “dados” ou “metas de produtividade” na fala do paciente; ele se coloca em um estado de receptividade profunda que permite a emergência do inconsciente. A clínica é, talvez, um dos últimos refúgios da vita contemplativa, onde o tempo não é cronológico (Khrónos), mas lógico e subjetivo. Ao resgatar o direito ao tédio e à pausa, a análise permite que o sujeito saia da histeria da hiperatividade para reencontrar a potência negativa — a capacidade de não-fazer, que é a base de qualquer ação verdadeiramente livre.
Estratégias para enfrentamento
O enfrentamento do cansaço contemporâneo na clínica psicanalítica não passa pela “otimização do descanso” ou por técnicas de autoajuda que apenas reforçam o imperativo de desempenho. Pelo contrário, as estratégias devem visar a desconstrução da lógica da positividade absoluta:
- Restauração da Negatividade e da Falta: A análise trabalha para que o sujeito aceite sua falta constitutiva. Contra o “você pode tudo”, a psicanálise afirma que o desejo só existe onde há um limite. Reconhecer a castração é libertador, pois retira do sujeito o peso de ter que ser completo e infalível.
- Diferenciação entre Desejo e Gozo: É fundamental discernir, na escuta clínica, o que é o desejo singular do sujeito e o que é o imperativo de gozo comandado pelo Superego. O desejo é sempre desejo do Outro e pressupõe alteridade; o gozo do desempenho é solitário e autista.
- Construção do Sintoma como Singularidade: Em vez de tentar eliminar o Burnout ou a depressão como se fossem “erros de sistema”, a clínica busca entender o que esse cansaço diz sobre a verdade do sujeito. O sintoma (ou sinthoma, em termos lacanianos) é uma forma singular de lidar com o Real, e dar-lhe um sentido pode transformar a paralisia em movimento.
- A Pedagogia do Ver e o Não-Fazer: Inspirada na proposta de Nietzsche citada por Han, a clínica incentiva a resistência aos estímulos imediatos. Aprender a não reagir imediatamente a cada notificação ou demanda é um ato de soberania psíquica.
- Busca pelo Cansaço Reconciliador: Diferente do cansaço solitário do desempenho, que isola o indivíduo em seu fracasso, a análise pode conduzir ao que Peter Handke chama de “cansaço-nós”. É um cansaço que permite a entrega, a vulnerabilidade e a conexão real com o outro, sem a necessidade de máscaras de produtividade.
Considerações finais
O cansaço que nos invade não é uma falha de caráter ou uma deficiência biológica; é o grito de um aparelho psíquico sufocado pela exigência de ser, a todo tempo, visível, produtivo e feliz. Byung-Chul Han nos alerta que estamos vivendo em uma sociedade que, ao eliminar a negatividade da dor e da resistência, acaba por eliminar a própria vida. A psicanálise, ao acolher o sofrimento, o silêncio e a exaustão, cumpre um papel subversivo na contemporaneidade.
Compreender que “estamos cansados” porque fomos capturados por um discurso que nos quer como mercadorias de nós mesmos é o primeiro passo para a cura. A clínica contemporânea deve ser o espaço onde o sujeito pode, finalmente, depor as armas da autoexploração e reencontrar o direito à sua própria opacidade, ao seu próprio tempo e ao seu desejo não-mercantilizado. O horizonte da clínica não é a produtividade, mas a possibilidade de uma existência onde o cansaço não seja um fim, mas um repouso reconciliador com a própria humanidade.
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Referências
ARENDT, Hannah. Vita activa: o espírito da vida humana. São Paulo: Editora 34, 2000.
BENJAMIN, Walter. Reflexões sobre o tédio e a melancolia. In: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994.
EHRENBERG, Alain. O fadiga de ser si-mesmo: depressão e sociedade. São Paulo: Cosac & Naif, 2010.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise (1969-1970). Rio de Janeiro: Zahar, 1992.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: Mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 23: O sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
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Luciano Santana Pereira
Psicanalista
Registro: ABPC: 25.761
Psicanalista com atuação clínica e empresarial, com 30 anos de experiência profissional. Atua na promoção da saúde emocional, escuta analítica e compreensão das dinâmicas comportamentais no ambiente organizacional. Possui Mestrado em Ciências Sociais, graduação em Administração e Pedagogia e especializações em gestão, desenvolvimento humano e Psicopedagogia. É fundador da Atuação Profissional Educação Corporativa e idealizador de projetos voltados ao desenvolvimento humano e profissional.