A pergunta mais frequente diante da insônia costuma ser simples: por que algumas pessoas não conseguem dormir? A medicina investiga alterações fisiológicas, neurológicas e hormonais; a psicologia observa hábitos, comportamentos e padrões cognitivos. A psicanálise, entretanto, desloca a questão para outro plano: o que torna tão difícil se entregar ao sono?
Essa é a perspectiva desenvolvida por Mario Eduardo Costa Pereira em A Erótica do Sono. Em vez de considerar o sono apenas como uma necessidade biológica, o autor propõe compreendê-lo como uma experiência psíquica que envolve confiança, entrega e suspensão do controle. Dormir não corresponde somente a uma função orgânica; constitui também uma experiência subjetiva que coloca o sujeito diante de sua própria vulnerabilidade.
A capacidade de dormir está ligada à capacidade de confiar
Dormir implica abandonar temporariamente o domínio consciente sobre o mundo. Durante algumas horas, deixamos de responder às exigências da realidade, suspendemos a vigilância e aceitamos uma condição de relativa passividade. Nesse sentido, a experiência do sono exige uma forma particular de confiança.
Mario Eduardo Costa Pereira propõe que a capacidade de dormir encontra-se profundamente relacionada à capacidade de confiar. A entrega ao sono pressupõe a possibilidade de acreditar que o mundo continuará existindo mesmo na ausência temporária da consciência vigilante. Nem sempre essa experiência é simples. Para alguns sujeitos, o desligamento é vivido como ameaça, perda de controle ou exposição à vulnerabilidade.
A dificuldade para dormir pode expressar justamente a impossibilidade de realizar esse movimento de entrega.
O corpo pede descanso. A mente permanece em estado de alerta
Uma experiência frequentemente relatada pelos pacientes é a sensação de exaustão física acompanhada de intensa atividade mental. O corpo pede repouso, mas os pensamentos permanecem em funcionamento contínuo. Preocupações, lembranças, antecipações e conflitos ocupam a cena psíquica justamente no momento em que seria necessário desligar-se.
A clínica psicanalítica encontra com frequência situações nas quais a insônia está associada à angústia, à responsabilidade excessiva ou à necessidade permanente de controle. Em muitos casos, a dificuldade não consiste na ausência de sono, mas na impossibilidade de abandonar a posição de vigilância.
O sujeito permanece acordado não porque lhe falte cansaço, mas porque algo em seu funcionamento psíquico continua exigindo atenção.
A noite e o encontro consigo mesmo
Durante o dia, a vida contemporânea oferece inúmeras formas de ocupação da mente. O trabalho, as redes sociais, os compromissos, as notificações e as demandas constantes produzem um fluxo contínuo de estímulos. À noite, entretanto, grande parte dessas distrações desaparece.
Resta então o encontro consigo mesmo.
Esse encontro nem sempre é tranquilo. Questões não elaboradas, perdas, conflitos, medos, culpas e sentimentos de vazio podem tornar-se mais presentes justamente quando o silêncio se instala. A insônia, sob essa perspectiva, pode representar uma dificuldade de permanecer a sós com a própria vida psíquica.
A noite reduz os ruídos externos e, muitas vezes, amplia os ruídos internos.
Insônia e angústia
Freud descreveu o sono como um afastamento dos estímulos do mundo externo e um recolhimento narcísico do sujeito. Dormir exige uma suspensão parcial das funções do ego voltadas para a realidade. Quando esse movimento não se realiza, a angústia pode ocupar o lugar do repouso.
A insônia frequentemente aparece associada a estados de alerta permanente. Como se algo precisasse continuar sendo vigiado, controlado ou antecipado. O sujeito permanece acordado diante de um perigo que nem sempre se apresenta de forma clara ou consciente.
A pergunta psicanalítica, portanto, não é apenas por que alguém não consegue dormir, mas o que torna tão difícil abandonar essa vigilância.
Winnicott e a capacidade de relaxar
Donald Winnicott contribui significativamente para essa discussão ao enfatizar a importância do ambiente suficientemente bom. Para o autor, a capacidade de relaxar, repousar e estar só depende das experiências primárias de sustentação e confiabilidade.
Somente quem pôde sentir-se suficientemente amparado desenvolve a possibilidade de entregar-se ao descanso sem vivenciar essa condição como ameaça. Quando essas experiências de sustentação são frágeis, a vigilância pode tornar-se uma forma de defesa contra o desamparo.
Dormir, nesse sentido, também implica confiar no ambiente.
A sociedade que não dorme
A dificuldade de dormir não pode ser compreendida apenas em termos individuais. A cultura contemporânea valoriza a produtividade constante, a conexão permanente e a disponibilidade contínua. O descanso passa a ser frequentemente percebido como improdutividade.
No ambiente de trabalho, as demandas extrapolam os limites da jornada. Mensagens, e-mails, metas e preocupações acompanham o sujeito para além do espaço laboral. O corpo vai para a cama, mas a mente permanece trabalhando.
A insônia torna-se, assim, também um sintoma social. A impossibilidade de desligar-se reflete uma cultura que dificulta a experiência do repouso e transforma o descanso em algo quase incompatível com o ideal contemporâneo de desempenho.
O que a psicanálise pergunta sobre a insônia?
A psicanálise não procura apenas explicar a ausência do sono. Sua investigação dirige-se ao significado subjetivo dessa dificuldade.
Do que o sujeito não consegue se desligar?
O que precisa permanecer sob controle?
Que encontro consigo mesmo se torna tão difícil quando a noite chega?
Essas perguntas não pretendem produzir respostas universais. Cada experiência de insônia possui uma história singular, relacionada às formas pelas quais cada sujeito lida com a angústia, a dependência, a vulnerabilidade e a confiança.
Considerações finais
Mario Eduardo Costa Pereira propõe uma ideia particularmente fecunda para a compreensão psicanalítica do sono: dormir é um ato de entrega.
A insônia, portanto, nem sempre revela apenas um problema relacionado ao sono. Em muitos casos, ela expressa a dificuldade de descansar psiquicamente, de abandonar a vigilância e de aceitar a própria condição de vulnerabilidade.
Quando a noite chega e os estímulos do mundo diminuem, resta o encontro com a própria vida interior. Às vezes, aquilo que mantém os olhos abertos não é a ausência de sono, mas a dificuldade de se entregar ao descanso.
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Referências
COSTA PEREIRA, Mario Eduardo. A Erótica do Sono.
FREUD, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos (1900).
FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer (1920).
WINNICOTT, Donald W. O Ambiente e os Processos de Maturação.
LAPLANCHE, Jean; PONTALIS. Vocabulário da Psicanálise.
ZIMERMAN, David E. Vocabulário Contemporâneo de Psicanálise.
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Luciano Santana Pereira
Psicanalista
Registro: ABPC: 25.761
Psicanalista com atuação clínica e empresarial, com 30 anos de experiência profissional. Atua na promoção da saúde emocional, escuta analítica e compreensão das dinâmicas comportamentais no ambiente organizacional. Possui Mestrado em Ciências Sociais, graduação em Administração e Pedagogia e especializações em gestão, desenvolvimento humano e Psicopedagogia. É fundador da Atuação Profissional Educação Corporativa e idealizador de projetos voltados ao desenvolvimento humano e profissional.